Entre sua primeira experiência e aquela tarde em que decidiu aderir à moda de beijar sapos passaram-se meses. Depois das chuvas que alagaram a cidade até que dedicou-se a longos e solitários passeios pelas áreas mais úmidas da cidade e uma vez, no Jardim Botânico, quase teve sucesso. Avistou um exemplar, mas quando chegou perto o bicho deu um último salto e escapou no meio de um arbusto. Finalmente, num final de semana na serra, apresentou-se a tão esperada oportunidade. A dona da casa e outros visitantes foram deitar. Ela, sabendo que os sapos aproveitavam a varanda da casa para encurralar insetos nos cantos, permaneceu ali sob o pretexto de admirar um pouco mais o céu estrelado.
Depois que a casa dormiu, apagada, um belo (leia-se grande) sapo apareceu no meio do jardim. Ficou um bom tempo imóvel até o primeiro pulo na sua direção. Entre cada salto também tomou seu tempo. Ela respirava no começo um pouco ofegante, mas a cada pausa do sapo se sentia mais tranqüila e sua respiração ficava mais suave.
Quando ele cruzou sua frente sentiu um arrepio que lhe subiu rápido do calcanhar até a nuca. Quando baixou os olhos deu de cara com o sapo. Ficou de pé e de uma vez o pegou com as duas mãos, como quem levanta uma criança pegando por debaixo de seus braços. Sentiu seus polegares deslizando pelo ventre macio e frio. Fechou os olhos e o beijou. A pressão de seus dedos ao redor do frágil animal o fez ejetar a língua, que entrou serpenteando em sua boca semi-aberta. Depois disso não sentiu nada. Acordou com o cantar do galo, mal deitada na espreguiçadeira e meio zonza. Concluiu que desmaiou antes de terminar o beijo.
(Continua)
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Veja como tudo começou. A mulher do sapo - Parte I
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
tempo de espera
ela voltou do médico e disse a ele: "se me ama mesmo, esqueça a idéia de ter filhos". mortificado com o tom amargo da voz dela, não teve coragem de perguntar por detalhes do diagnóstico. e jamais ousaria procurar o médico a quem ela confiara os resultados dos exames feitos durante a última viagem dele.
tratou de agir como se nada tivesse acontecido nos dias seguintes e dissolvia a pena que sentia dela e de si mesmo nas lágrimas que deixava cair enquanto dirigia para o trabalho pela manhã. ela não era sentimental e odiaria uma cena em torno disso. simplesmente não tocaram no assunto. e não se tocaram durante quase dois meses.
voltaram a fazer amor numa noite qualquer depois do jantar. não chegaram até o quarto. o gozo simultâneo chegou rápido e durou muito no chão do corredor. ela olhou para ele pelas frestas dos cabelos que lhe caiam sobre o rosto e sentiu que nada havia mudado entre eles. logo sua vida voltou à normalidade.
às vezes ele a surpreendia pensativa olhando pela janela as crianças que passavam a caminho da escola que ficava no final da rua. também percebia as respostas monossilábicas no carro quando regressavam de algum compromisso com amigos que tinham filhos. mas nada que alterrasse seu jeito tranquilo e quase distante de sempre.
para não afetá-la, ele pouco a pouco forjou uma indiferença convincente em relação a crianças. com o tempo ele mesmo creditava a harmonia conjugal que desfrutavam à ausência de filhos.
ele seguiu sendo tudo para ela. definitivamente aquele homem era a melhor pessoa que conhecera em sua vida. não sentia nada além de seu amor por ele e um medo tétrico todas as vezes que em engolia às escondidas sua dose diária de anticoncepcional. quando chegou à menopausa, foram mais felizes do que nunca.
tratou de agir como se nada tivesse acontecido nos dias seguintes e dissolvia a pena que sentia dela e de si mesmo nas lágrimas que deixava cair enquanto dirigia para o trabalho pela manhã. ela não era sentimental e odiaria uma cena em torno disso. simplesmente não tocaram no assunto. e não se tocaram durante quase dois meses.
voltaram a fazer amor numa noite qualquer depois do jantar. não chegaram até o quarto. o gozo simultâneo chegou rápido e durou muito no chão do corredor. ela olhou para ele pelas frestas dos cabelos que lhe caiam sobre o rosto e sentiu que nada havia mudado entre eles. logo sua vida voltou à normalidade.
às vezes ele a surpreendia pensativa olhando pela janela as crianças que passavam a caminho da escola que ficava no final da rua. também percebia as respostas monossilábicas no carro quando regressavam de algum compromisso com amigos que tinham filhos. mas nada que alterrasse seu jeito tranquilo e quase distante de sempre.
para não afetá-la, ele pouco a pouco forjou uma indiferença convincente em relação a crianças. com o tempo ele mesmo creditava a harmonia conjugal que desfrutavam à ausência de filhos.
ele seguiu sendo tudo para ela. definitivamente aquele homem era a melhor pessoa que conhecera em sua vida. não sentia nada além de seu amor por ele e um medo tétrico todas as vezes que em engolia às escondidas sua dose diária de anticoncepcional. quando chegou à menopausa, foram mais felizes do que nunca.
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